é, abandonei mesmo :T

Hoje despi o céu, bem em cima da minha cabeça. Me permiti deslumbrar as estrelas, uma em especial; por tempo suficiente para projetá-la em meus olhos, quando fechados. Não pensei na parte romântica do momento, acreditei que eu era a unica que havia notado seu brilho, inconfundível. Um brinde aos que duvidam, deles será a certeza. O céu me inquieta com todo seu ilusionismo em noites como essa. Me dá um tanto de medo. E um tanto de reconhecimento da minha insignificância perto dele. A irmã, na rede, conseguiu roubar palavras da minha boca a respeito de coisas que nem me importavam mais. Até aquele momento, pelo menos. Foi estranho falar do passado como passado, já que eu fingia que tudo aquilo já nem havia existido.

Essa tarde as nuvens correram pelo céu, imóveis. Deitada num colo, pude olhar por outro ângulo, limitada pela janela da kombi que me levava de volta pra casa. Era como um quadro pintado por Deus. Vez ou outra a copa de uma árvore invadia a paisagem rapidamente e eu podia ver o contraste dos vãos entre as folhas com o azul do céu. Vez ou outra o que invadia meu campo de visão era a imagem do garoto que retornou outro dia, trazendo consigo as lembranças já não lembradas.
Naquele dia, a chuva passou por aqui, forte e imponente, só para absorver para si um pouco do brilho excessivo do sol. Veio de repente e com certa fúria, certeira em cada gota. Espirrou na garota, que foi buscar conforto nos braços do namorado; aprisionou pessoas, que se esconderam debaixo de telhas; carregou das árvores as folhas secas, já sem vida; e então me olhou, intrigante, como se tivesse vindo me avisar que algo me aguardava depois do temporal. E se foi. Como um castigo ou um alívio, veio e se foi. Eu voltei para as palavras riscadas a giz no quadro negro e o céu voltou para o sol.
Só depois do arco-íris ele surgiu, com o mesmo sorriso e o mesmo olhar de sempre. Como a lua no céu noturno, estava ele na multidão. Eu já deveria saber que todo o sentimento já nem existia mais, mas esperei alguns segundos pela alteração da temperatura do corpo ou pela tentativa do coração em saltar pra fora. Esperei sem resposta. O fato de ele estar de volta só me fez perceber o quão inconsciente eu estive e como isso me fez bem. Ao passar ao seu lado eu agradeci outra vez, dessa em silêncio, pela sua presença ser tão encantadora. E ficou nisso outra vez, silêncio.
As nuvens continuaram correndo pelo céu, enquanto as copas das árvores invadiam a paisagem e eu já não resgatava lembranças, apenas descansava ali naquele colo confortável.
O tempo oscilou um pouco essa semana, mas decidiu manter os dias gelados. E o frio decidiu se concentrar bem na barriga, como se faltasse o chão. Porque vai chegando a hora de decidir o que fazer da vida e isso é um problema quando não se sabe bem o que quer. O filme passa na cabeça e mostra tudo o que já almejei. As sapatilhas do balé, a melodia do piano, o capacete do astronauta, os mapas de previsão astral, a respiração das plantas, as cores da arte, as linhas do designer, as medidas da arquitetura, a precisão da medicina, as letras dos livros e, nos compostos químicos, chega ao fim. Não há mais nada, exceto pelo espaço em branco, a ser preenchido. O vazio da cor chega a causar certo encômodo, inevitável e intimidador. A vontade de liberdade grita bem alto, em meio a colisão de ideias. A verdade é que ficar para sempre no colo da mãe é um opção tão confortante, que a certeza de segurança acaba por abafar todo o resto. Essa é só mais uma opção descartável, assim como tem sido todas as outras.
Enquanto isso, a voz continua latejando dentro da cabeça, indagando pelo meu propósito na vida; as coisas continuam oscilando, como se não fizesse sentido seguir uma ordem natural de existência; e a temperatura continua baixando, deixando em evidência o branco: mudo, imóvel, mas de olhos famintos.
Os dias tem sido confusos.
Foi o que ela disse, dentro da minha cabeça.
Hoje me peguei como uma daquelas típicas garotas das comédias românticas:
devorando sorvete depois de se sentir desprezada pelo protagonista bonito e
popular. A vida realmente me parece um filme, às vezes. sendo tal comparação mais válida nas férias, quando minha cabeça fica vulnerável a qualquer tipo de pensamento e o volume de tudo aumenta. É quando eu saio e falo sobre coisas que não envolvem química e exatas, quando os filmes e livros são escolhidos por livre e espontânea vontade, quando o relógio é dispensado e vira apenas enfeite de parede, quando as luzes coloridas piscam e ofuscam o sentido das coisas, e até quando o pijama é o visual predominante nos dias de indolência. E é pra esses dias que eu reservo particular preocupação. Porque aí os pensamentos invadem, sem pedir licença. Parecem atraídos por toda essa atmosfera nostálgica, tão densa que quase acaba por dificultar a respiração. Nessas férias passei por mais dias desses do que eu esperava. Mensagens nas madrugadas, promessas de amor, devaneios inconscientes. Pra acabar aqui, afogada numa vasilha de sorvete porque o olhar foi evitado. E o oi e o beijo e o risco e o resto. E depois de tudo implorar por menos, pelo pause no controle remoto, pela interrupção de todo esse transe. Consequências de verão. Com seu fim iminente, vem a súplica pela rotina, pelos livros obrigados, pelo uniforme das sete às seis, pelos finais de semana enfiada em casa estudando. Por tudo isso que me recompensa por dar o melhor de mim. Porque no próximo verão o play novamente é pressionado. E então é sol, mar, pensamentos sem razão e muito sorvete.

“O resto das suas vidas é muito tempo, e quer saibam ou não, está sendo traçado agora. Podem escolher culpar o destino, ou má sorte, ou escolhas erradas. Ou podem lutar. As coisas nem sempre serão justas na vida real. É assim que as coisas são. Mas, na maioria das vezes, você recebe o que dá. Deixe-me perguntar uma coisa: O que é pior? Não conseguir tudo o que você sonhou ou conseguir, e descobrir que não é o bastante? O resto das suas vidas está sendo definido agora mesmo. Com os sonhos que perseguem, as escolhas que fazem e com as pessoas que decidem ser. O resto da vida é muito tempo… E o resto da sua vida começa agora.”

Haley James Scott, One Tree Hill

Era para estar acontecendo uma coisa legal aqui. Do tipo daquelas nas quais são ditas palavras capazes de explicar o inexplicável. Coisas inexplicáveis tem acontecido. Outra madrugada ouvi o galo cantar a canção do amanhecer. Eu já havia despertado, um tanto inquieta. O sol nem tinha nascido, só a lembrança de que eu estava longe de casa pairou, de súbito, com a melodia. Me senti insegura de novo. Me lembro de estar conversando com ele no celular antes de dormir, porque este estava comprimido entre os dedos cansados após expressar tantas palavras sem qualquer consciência do que estava fazendo. Me lembro de ele ter dito que eu não precisava ficar insegura, porque não estava sozinha. Engraçado como as coisas são mais fáceis quando se dispensa o olho no olho. Embora insaciáveis. O sinal tava ruim, não consegui dizer muito. As coisas ficaram pedindo por um pouco mais. Três e pouco da manhã duas mensagens atrasadas resolveram chegar no mesmo instante. Foi o que me fez levantar da cama que eu dividia com alguém e preferir esperar no sofá pelo sono. Uma delas chegou pela metade, mas, ainda assim, nenhuma era dele. Estranha essa sensação de ansiedade. Estranha por ser com ele. A luz do relógio se propagou no escuro do cômodo e revelou os números idênticos. Cinco e cinco. Eu tive um minuto para pensar em aceitá-lo. Foram os sessenta segundos mais longos já presenciados. E no fim lá eu estava. Pensando nele. Mal sabia que uma trepidação estava por vir. Coisas inexplicáveis tem acontecido. Faz um mês que eu to nessa, de esperar ele vir pras peças se encaixarem. Certo o que disse que recebemos o que damos e colhemos o que plantamos e tudo o mais. Tarde demais pra dizer que te quero do meu lado?
“ Ela viu as caixas abarrotadas de livros na sala, mas não comentou nada. O desmonte do refúgio. Sentados no sofa, bebemos e conversamos sobre outras coisas bem mais amenas. Falamos do passado e evitamos, por um tempo, mencionar o futuro. Evocamos com carinho o dia do nosso primeiro encontro, Lavínia lembrou de ter consultado os astros naquela tarde depois que saiu da loja de Chang. Eles apregoavam: jogue-se na vida.
Perguntei por que me escolhera.
Gostei do jeito que você me olhou, disse. Parecia que estava pedindo desculpas por me achar tão bonita.
Remova a poesia do que ela falou: eu a olhei na loja de Chang com uma fome que nunca senti por nenhuma outra mulher. Um episódio inaugural. E também fui olhado de uma maneira que ainda não tinha acontecido antes. Conhecê-la fez do passado um mero ensaio, um treino antes de ser exposto à sua incandescência. “
Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios – Marçal Aquino

Sempre reparo nas lindas garotas dos seriados, no auge da adolescência. Populares, bem vestidas, bem mantidas. Elas parecem possuir escudos, que só não deixam imune o coração. Quase sempre sofrendo por amor, quase sempre tentado dar a volta por cima, seguir em frente. Homens disponíveis não faltam. Disponíveis e lindíssimos. Coisa de ficção. As roupas não repetem, as palavras também não. Basta uma vez dita. O que elas querem, acontece. E grande parte disso eu sempre desejei pra mim. Sempre desejei os dezessete. Não sei bem por que os dezessete e não os dezoito ou vinte e um. Mas dezessete me passava uma impressão de poder. Eu falando e todos escutando e todos concordando. Queria ser como elas. Me vestir como elas. Ter um pouco desse encanto que elas têm. Dezessete chegou. Mas, por alguma razão, parei de desejar tanto tudo isso. Artificial essa coisa da ficção. A realidade ta aqui, me presenteando com os dezessete, saúde e tudo o mais. Eu estou aqui, na realidade, firme e forte para o que der e vier. Pronta para os corações partidos, para os lindíssimos homens indisponíveis, pro auge da adolescência. Dezessete chegou. E algo me faz pensar que, de qualquer forma, chegaria de um jeito incrível. Mesmo que eu não conhecesse toda essa vida dos contos de fadas. Mesmo que eu não desejasse ser como as garotas dos seriados. Mesmo que eu não quisesse. Porque dentro de mim algo se estusiasma e grita que sempre soube que seria assim.

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